segunda-feira, 2 de julho de 2007

Um passo à trás e dois à frente para evitar a doença infantil do comunismo

Em um grito uma esperança
de que dele se construa a lança
para que um dia a vingança
se faça justa
e a vitória que alcança
seja perpétua e não lembrança

Logo, ao inflar o peito largo
tenha calma e volte um passo
Não se afobe ao descompasso
pois um grito dissonante
não alcança o som cantante
de uma bela serenata.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

chero de medo

Ah, limitações de um pobre trovador
sarcástico às alegrias da dor
Cansado das agonias
aguas calmas bem além
porém,
não sigo o Norte que eu vejo
a minha bussolá do avesso
me faz andar por um começo
que se repete.

Mas, jaz,
enfim
jaz a luz
que se reduz
à chama que vejo em ti
quem clama
mas não por mim.
Assim...
Não faz assim

Isso tão breve sôa
já não me perco nesse lamento
seu olhar em mim ecôa
Já terminou o sofrimento

segunda-feira, 16 de abril de 2007

huaha

Eu que não sabia o que queria
Eu que já não era o que sabia
Pensei ter encontrado o meu tesouro
mas apenas vivia um mal agouro

o choro calado brotou
um peito triste inflou
entre os dentes já não cabia o amor
nem a primavera de outubro.
ficou, mais um rosto rubro

perdido por aí
a passos largos
sem ter onde ir
o dom quixote impunha a lança
e caminha para a vingança

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Provocações (Luiz Fernando Veríssimo)

A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

]Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

- Violência, não!

Mãos dadas(Drummond)

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Isso é só uma escolha para não calar e provocar